Conferência «A Música que une mundos»
Tânia Trindade
Tânia Trindade
23 out 2026
SEXTA 17:45
Biblioteca Nacional de Portugal
Lisboa
De uma pauta de Canto Gregoriano às rotas da Engenharia Aeroespacial e ao coração de África, há uma linha invisível que une o rigor, os sonhos e a vida: a música. No Instituto Gregoriano de Lisboa concluí o Curso Supletivo de Piano com 19 valores, sob a orientação do Professor Eurico Rosado, conciliando durante oito anos a exigente formação musical que tive o privilégio de ter, com os estudos secundários.
Tenho ouvido absoluto e cresci rodeada por sons que se transformavam naturalmente em notas. A música não era apenas uma aprendizagem académica; fazia parte da minha forma de pensar, sentir e observar a vida.
Apesar desta ligação, optei por seguir Engenharia Aeroespacial. Guiei-me sempre numa busca insaciável por caminhos inalcançáveis, pela constante necessidade de testar limites e construir, com autonomia, o meu futuro. Sabia que a música estaria presente, mas a engenharia representava para mim a possibilidade de conquistar essa liberdade.
Depois de trabalhar uns anos na área, decidi ir mais longe, colocar as minhas capacidades ao serviço de algo com impacto real e, em 2012, mudei-me para a República Democrática do Congo.
Foi aí que compreendi o verdadeiro significado da minha formação. Na floresta tropical, o meu trabalho diário na proteção dos ecossistemas, das comunidades que nela vivem e da ciência ligada à preservação florestal confrontou-me com a dura realidade da subnutrição infantil. No meio desta gestão complexa, percebi que a vida e a dignidade humana estão acima de tudo. Levei um piano para uma aldeia isolada no interior do Congo e descobri que a ciência e a conservação de florestas ganham outra alma quando acompanhadas pela arte. Essa ponte musical ressoou até aos palcos: não só na minha atuação como solista com a Orquestra Sinfónica Kimbanguista, como as crianças que antes reabilitámos de subnutrição tornarem-se profissionais, atuando em Kinshasa e chegando a partilhar um concerto inteiro com a cantora internacional Joss Stone.
Hoje continuo a desenvolver projetos para a proteção do grande pulmão do mundo, e a dinamizar atividades musicais com crianças e jovens vulneráveis. Na minha vida, a música vibra como o sopro vital que atravessa todas as minhas dimensões: chave invisível que entrelaça a razão, a ciência, a realidade e a dignidade humana, conferindo um propósito pleno a tudo o que sou e realizo.
Tânia Trindade